Uma Nova Era na Ordem Econômica Mundial e os Impactos na Maneira Como Você Investe

Desde o fim da guerra fria e da queda da União Soviética entramos em um período de extrema transformação mundial até então nunca antes vista: a unificação dos mercados.

Era o início da década de 1990.

Com o fim das preocupações até então existentes entre duas grandes potências nucleares em crise, o planeta caminhou para um período de intensa globalização.

Palavra Chave: Muita Produtividade

A China passou a transitar da economia planificada comunista para uma economia de mercado aberto no início dos anos 80, com altos índices de cidadãos prontos para serem utilizados como mão de obra industrial.

O que os países passaram a fazer?

Passaram a terceirizar sua produção e importar da China itens básicos e primários, podendo assim direcionar sua própria mão de obra e seu capital em indústrias e serviços de maior nível tecnológico.

Para que vou empregar pessoas costurando casacos se posso empregá-las para a pesquisa de novos medicamentos ou projetos de inovação tecnológica?

A China se torna o maior exportador do planeta e sua economia cresce a ritmos acelerados dali em diante.

Em 1978 o PIB chinês foi U$ 150 bilhões e em 2018 U$ 12,2 trilhões.

Os países europeus e os Estados Unidos passaram a produzir no leste asiático todo tipo de manufatura.

Isso deu fôlego para criação de grandes economias de escala como conglomerados industriais, varejistas e marcas bilionárias que se instalaram ao redor do mundo posteriormente.

Nos países ricos, a mão de obra se especializou cada vez mais sem a necessidade de ser alocada em indústrias de menor valor ou de produção primária (como costurar casacos), agora, tal mão de obra poderia ser empregada na tecnologia, na engenharia e nas pesquisas científicas mais avançadas.

Os últimos 30 anos foram o cenário perfeito para a globalização e integração de um mercado único.

A Europa se uniu monetariamente e comercialmente, os Estados Unidos se fortaleceram como potência única e isolada no planeta e os países ricos se tornaram mais ricos ainda.

E na periferia do Capitalismo?

Aqui no sul global nós surfamos na onda da desindustrialização, passamos também a importar produtos básicos da China.

Com o crescimento do mercado global, passamos a exportar ainda mais produtos primários, agrícolas e commodities.

O Brasil passou a ter exportações recordes e muito capital entrando, mas não conseguiu transformar esse capital em aprimoramento da sua mão de obra, infraestrutura e criação de uma indústria interna mais forte.

O milagre econômico latino-americano da década de 2000 não foi sólido o bastante para criar o desenvolvimento atingido pelos países ricos, e findado o super ciclo das commodities, estagnamos.

Cenário Global 1990-2020

Apesar de termos vivenciados guerras e períodos turbulentos dentro da década de 2000, como a crise de 2008, o planeta estava em bom momento econômico com juros baixos e inflação baixa.

A produtividade crescia, alcançamos níveis de inovação nunca antes vistos e o leste asiático provinha tudo que era necessário para suprir a demanda básica do planeta, formando ainda um mercado consumidor gigantesco.

Em contrapartida, a América Latina provinha exportações recordes de alimentos para o resto do mundo e colhia resultados econômicos satisfatórios.

Então aqui temos o tripê duplo perfeito: produtividade alta + juros baixos + inflação baixa nos países ricos, e produção primária recorde + juros altos + crescimento moderado nos países emergentes.

Os Próximos 30 anos

Os próximos 30 anos serão muito diferentes do que estamos acostumados a vivenciar até hoje.

Uma nova geopolítica se formou no antigo bloco comunista e um antagonista ao imperialismo americano e ao colonialismo europeu surgiu: China e Rússia mais alinhadas e economicamente mais poderosas.

A Rússia demonstrou novamente um discurso belicoso em relação a sua soberania no leste europeu e sua capacidade militar para ameaçar a OTAN. O ex presidente Dionald Trump, favorito para as próximas eleições, já demonstrou profundas críticas e tons ameaçadores com relação ao tratado.

Uma China economicamente forte e um Estados Unidos experimentando altos níveis de inflação mostraram que a soberania econômica norte-americana não seria mais a única no planeta.

Depois de muitas décadas os juros americanos poderão subir a níveis nunca antes vistos na tentativa de controlar a inflação.

O movimento inflacionário é global e os esforços que cada região fará para controlá-la será individual e com muitos respingos nos países pobres.

Pandemia e Invasão da Ucrânia

A pandemia do COVID-19 destruiu os fatores de produção e desorganizou toda a cadeia produtiva que estávamos adaptados.

Governos injetaram moeda em várias frentes para manter a liquidez, a saúde das empresas e manter a população com renda de sobrevivência assegurada.

O retorno pós pandemia prometeu altos booms produtivos mas a alta dos preços estavam se segurando na cauda desse boom.

Para piorar o cenário uma nova guerra explode no leste da Europa.

Parece uma manchete comum de um jornal dos anos 90.

A guerra russo-ucraniana nos coloca novamente em uma perspectiva econômica de fragmentação mundial, quem depende das exportações ucranianas e russas se encontra em uma posição de fragilidade e de risco de desabastecimento.

A possibilidade do corte de fornecimento do gás natural russo para a Europa traz instabilidade nos preços dos combustíveis e nova corrida por fontes alternativas de energia (ainda muito mais caras que o petróleo ou gás).

Preços subindo!

Juros Americanos e Seus Efeitos na América Latina

Com os Estados Unidos subindo juros o real se torna mais fraco.

Por quê?

Pense que você é um investidor e deseja alocar seu capital em um investimento seguro, como um título soberano (nosso tesouro nacional), você aloca porque confia na capacidade do Estado em te devolver esse dinheiro com o menor risco possível de calote.

Você pode escolher alocar esse capital nos Estados Unidos ou no Brasil.

Antes, uma taxa americana próxima a 0% e uma taxa brasileira a 10% já eram por si um bom fator de decisão para esse investidor, “aloco no Brasil para buscar um retorno maior”.

Entre o Brasil e os Estados Unidos, qual dos dois países tem mais chance de te dar um calote?

Obviamente o Brasil por se tratar de uma economia emergente e que sofre periodicamente com crises econômicas.

Agora pense em um cenário onde os Estados Unidos te oferecem um título soberano com taxa de juros de 6%.

A decisão muda né? Afinal, o investidor alocará seu capital em um país desenvolvido e economicamente estável.

Perdemos o atrativo e vemos nosso capital fugir.

Seus Investimentos

Contei toda essa história para finalmente chegarmos na parte que mais te interessa, onde ficam os nossos investimentos nesse caos de reorganização mundial?

Se alguém soubesse a resposta essa pessoa teria no mínimo descoberto a viagem no tempo.

Tudo cresceu muito nos últimos 20 anos, a renda fixa, o tesouro, as ações, as bolsas e os fundos de investimento.

Os resultados financeiros de investimentos seguem o mercado, seguem a economia e seguem a tendência global.

Hoje temos níveis recordes de pessoas e empresas operando no mercado financeiro e isso gerou uma avalanche de especialistas e operadores vendendo todo tipo de papel.

E estava tudo bem, a maioria desses papéis cresceram.

Mas agora é diferente por que não sabemos quais serão os impactos da desorganização produtiva e guerra comercial entre as potências nos produtos de investimentos, vemos empresas queimarem seus lucros em poucos meses e vimos a bolsa brasileira pulverizar em pouquíssimas semanas.

Não sabemos como a China irá reagir comercialmente no curto prazo.

O propósito aqui não é criar uma sensação de pânico ou ansiedade mas sim de sobriedade na forma como você costuma investir.

O nível de risco que você aceita na sua carteira, a porcentagem de capital que você coloca em produtos mais conservadores possíveis não podem mais ser vistos como uma furada, ou ser encaixados na retórica de “estou perdendo dinheiro e oportunidades”.

É um momento muito bom para focar na renda fixa e em empresas que surfam nas altas dos preços mundiais, é um momento excelente para focar em produtos multimercados.

Aquele ditado: quem diversifica sofre menos e continuará firme e forte.

Mas é um movimento que necessita de muita cautela da sua parte, de muita pesquisa e de muito questionamento, por que você vai perder dinheiro sim.

É um momento de atenção extrema em criar uma reserva de emergência que você possa utilizar em momentos de dificuldade.

Arrisco um pouco mais em dizer que é um momento muito bom para que você dedique capital a se especializar e se profissionalizar, em um futuro próximo onde os países emergentes irão precisar se industrializar novamente.

Leitor, não tenho a receita de bolo pronta só tenho o alerta: tire o pé do acelerador.

Prefiro voltar a este post daqui há 5 anos e ver que me equivoquei e que o Brasil conseguiu ajustar-se economicamente e voltar a crescer, mas enquanto isso não acontece proteja-se.

Ótima semana!!