Eu assistia os níveis de tolerância com a construção da sociedade humana desaparecerem do meu avô em dois momentos diferentes. O primeiro era em finais de ano, quando ele dizia que as pessoas perdiam a razão e a civilidade e ficavam desesperadas por causar caos no trânsito e encher os shoppings centers com compras de natal num frenesi de stress e loucura.
A segunda era sempre que chovia e ele desistia de sentir qualquer empatia pelos seus semelhantes que não tivessem um guarda-chuva.
“Eu nunca vi isso, saiu de casa e viu que ia chover porque não colocou um guarda-chuva na bolsa?”
“Oh lá agora não adianta sair correndo, a semana toda falando que ia chover e não saiu com guarda-chuva”.
Toda revolta da existência do meu avô era em cima de pessoas que não andavam com guarda chuva em suas mochilas, as pessoas carregam a vida dentro das mochilas e porque não, dentre o amontoado de objetos inúteis, carregar a única invenção humana que serve para andarmos na rua durante os temporais (e chegar em casa completamente encharcado da mesma maneira que se tivéssemos correndo debaixo da chuva).
Eu tive a mesma amargura do meu avô e os guarda chuvas quando esse papo de profissional generalista versus profissional especialista surgiu nos corredores corporativos e eu revirei os olhos com tanto vigor que eles poderiam ter dado uma volta inteira pelo interior do meu crânio.
Papinho da moda.
Isso é coisa de gente ignorante! (outra frase das preferidas de meu avô). Falei no mesmo tom amargo que herdei dele em algum gene (junto com a minha calvície, dizem que é da parte de mãe que os meninos herdam a calvície então quem está participando desses estudos pode botar um tracinho positivo aí).
Até hoje em dia, nas trincheiras dos meus 40 anos, eu carrego o meu guarda chuva dentro da minha mochila como se fizesse parte de uma seita religiosa dos carregadores de guarda chuva, até na minha mochilinha de academia eu tenho um outro guarda chuva de prontidão.
É um assunto delicado caro leitor.
Sempre que alguém esquece e eu empresto o meu guarda chuva, meu avô sorri do céu em orgulho pelo neto que criou, e logo em seguida vira para São Pedro e fala: “porque esse boçal não compra um guarda chuva e coloca na própria mochila? A previsão a semana toda avisando que vai chover.”
Tá, agora vamos falar do tal generalismo que me faz torcer o nariz?
Conforme definição da Qulture Rocks:
Generalistas são profissionais com conhecimento amplo, mas menos profundo em diversas áreas. Eles são versáteis, adaptáveis e capazes de lidar com múltiplas tarefas simultaneamente. Esta amplitude de conhecimento permite que eles vejam as conexões entre diferentes áreas da empresa, facilitando a integração e a comunicação entre departamentos.
Especialistas, por outro lado, possuem um conhecimento profundo em uma área específica. Eles são altamente qualificados e possuem habilidades técnicas especializadas que os tornam indispensáveis para funções que requerem um alto grau de expertise.
Generalista na minha concepção era um trabalhador que não sabia o que queria da vida. Fica pulando de carreira e inventando moda, não foca em um objetivo só na carreira.
Em junho eu estava conversando com uma amiga, que já fomos colegas de trabalho no passado por alguns anos, e ela me disse: “talvez você seja um generalista Thi, você é o que mais enxergava processos e conseguia enxergar ele todo. Fora que você vive mudando de foco, projeto e área no seu trabalho. Se isso não for generalista não sei o que é.”
Eu me acho uma pessoa com senso crítico aquém do normal, por isso quando revelações como essa que me obrigam a desmascarar uma parte minha que eu não conhecia ainda é bem chocante.
Minha amiga falou isso pelo fato de que eu passei e continuo passando por muitas áreas e projetos diferentes, mesmo que eles sejam na mesma companhia.
Fiz parte de uma empresa varejista que anos depois seria vendida para uma indústria e mesmo atuando com o mesmo negócio e marca, sai de um ambiente varejista para um fabril de um mês para outro assimilando as suas regras e particularidades.
Passei por engenharia, arquitetura e shopping center. No shopping center o financeiro não é o que você imagina se já tiver experiência na área, é totalmente diferente.
Fui recursos humanos, migrei de financeiro para comercial, migrei entre projetos da mesma empresa diversas vezes que eu nem saberia listá-los aqui.
Estudei excel, estudei BI e agora estudo sistemas de dados em phyton.
Aonde que eu sou um especialista? Só se for em falar groselha.
Como um homofóbico se descobre homossexual enrustido, o especialista se descobriu… um generalista.
Você quer chamar isso de que? Resiliência? Esforço? Visão de dono? Gosto pelo aprendizado?
Eu já quero chamar de: ou é isso ou não tenho o que comer.
Você acha mesmo que eu acordei uma manhã linda de sábado ensolarado e falei “nossa que belo dia para fazer meu curso de power BI que irá mudar a vida das pessoas”? Quem acredita nisso gente?
Já fiz de tudo e sigo fazendo de tudo, o mercado no capitalismo tardio não te permite ser apenas uma coisa na vida, você precisa ser tudo e performar em várias áreas. É aquele famoso “para ser um bom comercial tem que entender de psicologia, comunicação e marketing”.
Caramba, que mais eu tenho que ser mestre para conseguir ter uma carreira? Fazer confeitaria? Aprender com o padre toca o sino da igrejinha?
Nada basta hoje!
Fazer o seu corre de todo dia não basta mais, vocês acharam mesmo que iriam sair ilesos disso?
O papo de especialista x generalista se torna cada vez mais obsoleto já que o generalismo está se tornando a regra para sobreviver no livre mercado. Ele te empurra para o generalismo mesmo que você não perceba, assim como a mudança na esteira de produção das fábricas mudou para atender a grande demanda do mercado no início do século XX e no pós 2º Guerra.
Repara, quando existe um profissional na firma que é muito elogiado e bem quisto por todos, é o profissional que consegue justamente transitar por áreas, processos e projetos diferentes sem passar aperto, ele como generalista nato mapeia suas necessidades e cria um fluxo de trabalho ajustado para a necessidade daquele momento.
O que ele não souber fazer ou resolver ele irá buscar estudando ou pesquisando.
A minha geração talvez esteja passando por isso com mais rancor, porque nós iniciamos o nosso trabalho e carreiras em um momento da humanidade em que tudo era mais difícil e analógico, tinha aquela sensação de que havia tempo suficiente para percorrer o caminho e principalmente: havia a falsa percepção de que tudo era justo e o esforço sempre seria recompensado.
Rapaz, com o nível de excel e análises que eu tenho hoje (e que é considerado da média para baixo no mercado) eu teria virado uma celebridade em meu primeiro emprego. Teria sido promovido em uma semana, e estamos falando de uma janela de apenas 15 anos!
A régua fica cada ano mais alta e mais custosa de atingir.
Por vezes, por muitas vezes, na maioria das vezes, em quase todas as vezes para ser sincero, o esforço não será recompensado.
Hoje o mercado vende a ideia de que não há tempo suficiente, e ele te entrega dezenas de nichos diferentes para conseguir te vender alguma solução para isso. Ou que pelo menos facilite o seu caminho na jornada.
Como por exemplo ter rotina produtiva e de alta performance em treinos de academia, que te exige acompanhamento com profissional, planejamento e compra de substâncias suplementares que muitas vezes passam de R$ 200,00.
Mas o que são R$ 200,00 né?
Você acha que isso é pouco? Se você guardar isso todo mês no Tesouro IPCA+ em 2040 vai resgatar R$ R$ 77.529,88 em simulação realizada em setembro/2026.
Os romanos construíram o Coliseo e os Astecas construíram cidades com escoamento de esgoto e saneamento antes mesmo da américa ser invadida, então acredito que você meu lírio do campo alienado, consegue sentar numa cadeira e atualizar um powerpoint por 6 ou 7 horas sem precisar de um curso hypado de 4.000 reais para ter um desempenho acima da média.
Fato é, que você não pode mais se dar ao luxo de ser especialista em nada, você precisa saber de tudo para sobreviver no mercado de trabalho e esse novo momento acabou de começar e provavelmente não tem data para acabar. Nós não nos tornamos generalistas o mercado nos empurrou para isso e nos fez crer que éramos nós mesmos que queríamos isso.
Para ser um bom profissional de finanças e crescer na vida você vai precisar entender de sistemas complexos de programação e para ser um comercial mediano vai precisar entender de comportamento emocional humano e saber destravar sua comunicação..
Para chegar a ser um head de marketing você vai precisar fazer o curso mais hypado e caro de inteligência artificial e marketing digital que a elite estiver fazendo (no final, os contatos que você conseguir salvar no whatsapp serão mais valiosos do que o conteúdo em si, que vai ser genérico), mesmo que ele te custe 3 meses de aluguel e não te agregue absolutamente nenhum conhecimento e nenhum networking que vá valer de alguma coisa.
Vai ter que saber BI, vai ter que saber de investimentos, vai que saber assar pão, se vira meu filho aqui é capitalismo tardio, quem viveu a era de ouro foi teus avós, supera.
Quando não temos o domínio das ferramentas e não conseguimos trazer novidades regularmente nas nossas posições de trabalho, começamos a perder espaço e performance e temer que sejamos descartados pela organização e pelo mercado de trabalho.
Medo esse que vai crescendo conforme ficamos mais velhos e o mercado mais competitivo.
Na obra “Trabalho e Sociedade” de 2018, FERREIRA, Adriana; KALAKUN, Jacqueline; SCHEIFLER, Anderson B. expõe perfeitamente porque o termo generalista têm ganho tanta força na última década:
Em muitos casos, esses trabalhadores de mais idade são oriundos de uma cultura fordista de trabalho, que tem por característica a especialização do trabalhador em determinada função. Porém, essa cultura já foi em grande parte ultrapassada ou é insuficiente para suprir as demandas do mercado, que busca um trabalhador multifuncional, adaptado às necessidades do modo de produção toyotista.
Na produção fordista existe a imagem de uma esteira de fábrica, onde as peças chegam até o trabalhador que faz um trabalho mecânico e repetitivo, sem precisar alterar nada. Os produtos, por sua vez, são iguais e o consumidor não pode exigir versões diferentes.
Na produção Toyotista o trabalhador vai operar em diversas frentes, como um solucionador de problemas da fábrica conforme eles forem surgindo. Este modelo visa eliminar desperdícios e produzir uma quantidade mais limitada de produtos, visto que uma empresa não pode queimar seu lucro desperdiçando dinheiro na produção.
Tudo e absolutamente tudo sempre desagua na mesma questão: o modo de produção capitalista vigente. Se antes eram necessárias muitas pessoas, focadas em uma parte exclusiva do processo e com absoluta dominância do assunto, hoje o mercado precisa exatamente do contrário: produção na medida certa, com zero desperdício e com pessoas que consigam executar todas as etapas do processo se necessário.
O multifuncional da produção toyotista é exatamente o profissional generalista que as empresas tanto clamam hoje. E nós, por ignorância e ansiedade de perda de renda, abraçamos e achamos tudo muito bonito e contemporâneo.
O modo de produção vigente no livre mercado é quem irá definir a forma como trabalharemos, o que deveremos perseguir de conhecimento e como iremos agir para se destacar nas corporações.
Na obra “A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho” (São Paulo: Cortez Editora, 2021), Christophe Dejours aborda que o medo, a ansiedade e a ignorância são as ferramentas mais usadas para que o trabalhador não consiga atingir um nível alto de entendimento do negócio, de maneira que ele apenas sirva como mão de obra.
O medo aumenta com a ignorância. Quanto mais a relação homem/trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo. São mais duramente atingidos os que são novos no trabalho, totalmente desarmados face a um mistério e a um risco mais indefinido. Em consequência, os trabalhadores sentem um medo muito maior quando mudam de função, pois ainda desconhecem os “macetes”. O último aspecto, paradoxal apenas na aparência, sublinhado pelos trabalhadores nas pesquisas realizadas, é que “a polivalência aumenta a tensão nervosa, e há caras que se acabam quando ficam polivalentes”.
Para Dejours (2021) mesmo quando o trabalhador adquire competência técnica e passa a dominar sua área de atuação, forças naturais do desenvolvimento do mercado e da tecnologia tornam processos e ferramentas obsoletas, fazendo com que os trabalhadores mudem de postos, de atuação e de trabalho criando uma nova onda de medo e ansiedade até adquirir a competência novamente. Criando-se assim, um circulo vicioso.
A crueldade disso é que não somos máquinas, envelhecemos, adoecemos, temos outras necessidades conforme vamos ficando mais velhos, temos pais idosos para cuidar, filhos pequenos para sustentar, e nosso próprio futuro para se preocupar.
Como eu vou sobreviver em um modo de produção que me obriga a ser cada vez mais multitarefa?
A pergunta que eu te faço é, quando você se deu conta de que se tornou um profissional generalista? E se você falar para mim que não se tornou um, eu te deixo o alerta: torne-se um logo antes que isso comprometa a sua carreira, sua renda e a venda de seu próprio trabalho no futuro liberal que o aguarda.
Abraços.