Nascido no finalzinho da década de 1980 e tendo minha visão de mundo moldada na década de 1990 e 2000, me fizeram pertencer a uma geração mega peculiar e disruptiva: os milenials, aqueles que veriam em sua adolescência a virada do milênio e o final do período de ouro da era democrática.
Eu passei a minha infância inteirinha tentando descobrir a qual classe social eu e minha família pertencíamos, era sempre uma grande incógnita antes de eu conseguir entender o funcionamento único e peculiar da classe média brasileira.
– Mãe, nós somos pobres ou ricos? Indaguei eu uma vez enquanto os adultos estavam bebendo no quintal de casa, provavelmente durante algum churrasco ou final de ano em família que era tão tradicional e divertido em nossa família.
– Nós somos de classe média Thi. Respondia calmamente minha mãe, como se nem ela soubesse bem o que fazer com essa pergunta descabida.
Talvez fosse mais fácil para os adultos na década de 1990 falar de onde vinham os bebês do que responder aos filhos sobre dinheiro e posição social, poucos anos após encerrar o ciclo mais ardiloso da hiperinflação brasileira, redemocratização e as trocas de moedas.
– Hum! A classe média vai é sumir minha filha, vai ser tudo ou rico, ou pobre! Dizia minha tia petulantemente e sempre maravilhosamente ácida.
Sua previsão catastrófica ainda não se concretizou passados já 30 anos, mas muito pelo contrário a classe média segue com suas fileiras cada vez maiores e economicamente mais estáveis. Em uma matéria publicada pela revista Valor Econômico de 13.05.2025, após o Brasil retomar, em 2024, a posição de país majoritariamente de classe média — com 50,1% dos lares pertencendo às classes A, B ou C —, a projeção é que esse grupo alcance 54,8% até 2034, segundo estimativas da Tendências Consultoria.
Com isso, espera-se uma redução da participação das classes D e E, que deve cair dos atuais 49,9% para 45,2% ao longo da próxima década.
Parece que a classe média continua longe de acabar.
Até que não seria uma má ideia que a profecia de minha tia tivesse se concretizado e não existisse mais a classe média, que de uns anos para cá se tornou um poço de conservadorismo barato, catastrofista, pseudo elitista, pseudo religiosa e tendenciosamente fascista. Tudo isso com a cereja do bolo: uma dificuldade incrível e avassaladora de enxergar o quão “não rica” ela é!
A década de 2000 foi um período ótimo do ponto de vista econômico, com crescimento real, aumento da renda e diminuição da pobreza. O que torna essa década economicamente forte é justamente o fator de ter havido crescimento econômico com distribuição da renda, ou seja, não adiantaria ter mais riqueza sendo produzida se essa riqueza ficasse somente nas mãos de 1% das pessoas, esse é o grande X da década de 2000.
Porém, na mesma velocidade que assistimos à riqueza crescendo, assistimos às crises econômicas nacionais e mundiais agindo com profunda rapidez! Transformações na cadeia produtiva e o grande crescimento chinês possibilitaram um rápido crescimento interno, mas ainda um crescimento de produtividade ineficiente para a nossa realidade e uma desindustrialização precoce.
Assistimos crescimentos de 6% e 7% do PIB para finalizar a década de 2010 com profundas crises e redução da renda das pessoas.
Coincidindo com o período que a minha geração chegava ao mercado de trabalho e desenvolvia suas primeiras projeções de carreira.
Já se notava que eu seria um rapaz torto das ideias: odiava futebol, brincava mais com as meninas, era desesperado por ecologia e minhas matérias favoritas eram história e geografia. Ambiente perfeito para florescer um esquerdista daqueles bem safados.
Na minha cabeça de criança, a matemática da riqueza era bem confusa. Eu tentava fazer as contas:
Moramos numa casa enorme — opa, mansão! Somos ricos! Mas aí eu olhava em volta: vó, vô, tio, tia, primo, mais primo… ué, isso aqui é uma república caramba? Talvez sejamos pobres mesmo. Meus colegas moram só com os pais. Meu pai trabalha numa firma grande, internacional — alô, sucesso! Ricos de novo! Mas ele falou que não tava mais conseguindo pagar meu colégio nem o da minha irmã — ih, lascou. Falência decretada! Aí minha mãe chegava do mercado com roupa nova, tênis, bolacha recheada e até Danone — volta o jogo: somos ricos, sim senhor! Mas… a gente nunca saía. Nem pra dar uma volta no quarteirão. Talvez uma pizza no fim de semana. Nem um parquinho. Ok. Confirmado. Pobres mesmo.
Minha mensuração do que é ser rico ou pobre partia da mesma que de todos nós: a capacidade ou incapacidade de consumir o que se deseja ou frequentar certos lugares.
O capitalismo promove na classe média uma cultura de consumo que aliena os indivíduos, incentivando-os a associar bem-estar e identidade ao acúmulo de bens materiais. Isso cria uma tensão psicológica constante, enquanto muitos não conseguem atingir os padrões de consumo impostos pelo sistema, perpetuando ciclos de endividamento e ansiedade.
O questionamento que temos de extrair aqui é o quão cruel e destrutivo é nos medirmos única e exclusivamente pela nossa capacidade de consumir bens materiais, como se a existência de vida humana consciente se resumisse a isso.
Para alguns se resume né?
O início e o decorrer da década de 2000 não foi um período fácil para minha família infelizmente, e eu me vi crescendo numa situação onde me sentia profundamente desamparado e distante dos meus colegas e familiares, que desfrutavam de uma posição mais tranquila.
Hoje, trinta anos depois, eu entendo que sou muito rico: tenho comida na mesa, roupa no corpo, trabalho com carteira assinada, um teto sobre a cabeça… enfim, toda aquela ladainha básica que a gente é treinado a repetir pra parecer grato o suficiente.
Gratidão, né? Porque se você não agradecer pelo feijão com arroz, vem alguém te lembrar que metade do mundo tá comendo só o arroz.
“Seja positivo”, “cultive a gratidão”, “olhe o lado bom das coisas” — blá blá blá, aquele combo motivacional que vem com cheiro de livro de autoajuda e culpa cristã.
Tá bom, pronto, gratidão expressa. Agora, posso voltar a realidade?
A geração dos milenials caminha para os seus 40 anos!
Eu estava tomando meu café preto, me preparando psicologicamente para meu novo dia de trabalho, extremamente frustrado por lesionar minha costela no domingo em um campeonato de jiu-jitsu onde eu e outro homem de 37 anos nos engalfinhávamos e tentávamos nos estrangular e imobilizar como se o perdedor daquele combate fosse ser jogado aos crocodilos enquanto, na verdade, estávamos quase nos matando por uma medalha de latão que não deve custar 5 reais. Não me julgue não, pelo menos eu tenho um hobby para perseguir que não envolve comprar bugigangas ou fazer tratamentos para ser aceito esteticamente pela socidade. Quem é o perdedor agora? Há!
Pipocam em minha mente dezenas de preocupações.
Algum dia conseguirei terminar de juntar o dinheiro para dar entrada no meu apartamento? Quando será a próxima recessão do mundo capitalista que pode me jogar abaixo da linha da pobreza? A crise climática atingirá seu apogeu em São Paulo em quantos anos, será que dará tempo de me aposentar?
O relógio marcava 08:30 da manhã, o meu café já tinha acabado e ficamos eu e meu prato sujo sentados à mesa deslizando o feed do Instagram, pensando em como eu deveria diminuir o uso do celular urgentemente, uma vez que minha saúde mental colapsou em 2023 e eu sigo consumindo conteúdos de superfície e excesso de informação apodrecendo o meu cérebro cada dia mais.
Algum dia serei eu mesmo novamente ou é só ladeira abaixo? Me responda se você souber, ficarei muito grato.
Minha amiga Roberta postou nos stories um carrossel que me arrepiou até os cabelos das costas (fique a vontade para trocar a parte do corpo, estou sendo polido, pois estou no LinkedIn), ele dizia: “A crise de meia-idade chegou para os milenials” com uma sub-chamada: a geração que acreditou que poderia mudar o mundo hoje luta para se encaixar nele.
Nesse post publicado em 28 de maio de 2025, a psicóloga Daniela Klaiman aborda a crise de meia-idade vivida pela geração millennial, destacando suas particularidades em relação às gerações anteriores. Ela aponta que, diferentemente dos baby boomers, que enfrentavam desafios relacionados à estabilidade financeira e à aposentadoria, os millennials lidam com questões como a busca por propósito, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a constante pressão por realizações.
Lá estava eu, um milenial exemplar, que dançou Spice Girls e É o Tchan, que usou ICQ e hoje usa o Microsoft Teams, que brincou na rua, mas viu o boom imobiliário da zona sul de São Paulo, tentando se encaixar no mundo e não endoidecer de vez, querendo um CEP fixo assim como tinha meu avô, querendo me aposentar na mesma empresa, mas com ganho real de capital.
Uma geração que até esses dias atrás chorava pela perda da copa de 1998 e sabia as coreografias do Tchakabum nas festinhas da escola e nos churrascos de família. O tempo não perdoou essa galera, aliás, ele foi bem malvado com ela.
Alguns de nós crescemos na pobreza extrema e na marginalidade, e a maioria destes não está nem mais aqui para contar sua própria história. A outra parte cresceu na fantástica classe média, classe média por vezes baixa, por vezes alta, por vezes indefinida.
O mundo de nossos pais e nossos saudosos avôs era muito diferente do que o nosso se tornaria em nossa idade adulta, mas nós não sabíamos disso né?
A ignorância é uma benção sabia? Veja bem, eu poderia viver 95 anos e durante todos eles acreditar que amanhã eu poderia mudar de vida, poderia realizar o sonho do enriquecimento e do sucesso, mas aos 37 descobri que a era de ouro do mundo capitalista já foi com Deus.
No artigo “Poderíamos Trabalhar Menos” publicado na Revista Jacobin, é discutido sobre um movimento que segue crescendo desde a década de 1980. Onde os mais pobres ralam horas e horas só pra garantir o mínimo: comida, aluguel, o básico pra viver. Já os mais ricos também se matam de trabalhar atrás dessa tal “boa vida” — que, no fim, parece que nunca chega. No fundo, todo esse esforço, tanto de um lado quanto do outro, acaba sendo um desperdício do nosso tempo e da nossa energia.
Percebe que não importa a classe social, todo mundo está trabalhando mais e adoecendo coletivamente em busca de um modelo de vida e família que deixou de existir junto aos nossos avôs.
Os que cresceram no privilégio de uma família rica e abastada percorreram um caminho mais tranquilo, puderam estudar em bons colégios, fazer cursos e ingressar em uma universidade ao terminar o ensino médio. Geralmente essa parcela menor de milenials são os que ainda acreditam que se tornarão o Warren Buffett de seu tempo comprando ações da Tesla e da Netflix. Mas são os mesmos adultos que trabalham até o burnout e até a completa aniquilação de seu ser individual e de seus prazeres pessoais.
Outros cresceram seguindo os passos de seus antepassados e passaram a perseguir o emprego para ajudar no sustento de casa ou para perseguir seus próprios sonhos e comprar suas blusinhas, não sabíamos ainda o que faríamos da carreira, mas estava tudo bem, havia tempo pela frente e a economia ia bem num mundo cada vez mais progressista.
Agora, entendemos que não temos mais tanto tempo assim, uma vida toda pela frente de repente se choca com uma realidade onde somos jovens de meia-idade tentando sobreviver, preocupados com o amanhã.
Preocupados em conseguir um endereço, uma viagem de 05 dias a cada 365, um alívio ao pensar que poderemos cuidar dos nossos pais que avançam na terceira idade e precisarão a cada ano mais de cuidados.
Todas essas preocupações, além de precisar ser o melhor profissional que as companhias já viram, para pelo menos garantir seu salário no final do mês.
Que diabos nos fizemos de errado colega?